quinta-feira, 30 de junho de 2011

DA FOME À OBESIDADE

O Brasil começa a viver o drama de países ricos. Com maior consumo de alimentos industrializados ricos em sódio, açúcares e gorduras, mais da metade da população apresenta sobrepeso ou é obesa. As classes C e D são as maiores vítimas.

Uma epidemia surge no Brasil e o Sistema Único de Saúde não está preparado para atender todas as suas vítimas. O sobrepeso e a obesidade, somados, já atingem cerca de 60% da população adulta brasileira. Levantamento do Ministério da Saúde mostra que 48,1% dos adultos estão acima do peso e 15% são obesos. Os dados são da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2010, para a qual foram entrevistadas 54.339 pessoas em todas as capitais do país. Desde 2006, quando a Vigitel começou a ser realizada anualmente, os números vêm crescendo. Há cinco anos, 42,7% da população estava com excesso de peso e 11,4%, com obesidade. Em 1975, apenas 2,8% dos homens e 7,8% das mulheres eram obesos, segundo o Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef) realizado naquele ano.

Enquanto parte do Brasil ainda tem fome, outra reproduz hábitos alimentares não saudáveis, provocando uma epidemia comum em países ricos. O Brasil ocupa a 19ª posição no ranking mundial entre os homens, e está em 15º quando se trata de mulheres, segundo pesquisa da revista médica americana The Lancet. Nos Estados Unidos, país líder mundial no ranking de obesidade, 25% da população é obesa. “Infelizmente conseguimos copiar o que eles têm de pior: o padrão alimentar”, diz a conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e professora da Universidade de Brasília (UnB), Elisabetta Recine.

Mas, tanto no caso do excesso, como da escassez, quem tem menos renda é o mais afetado. Se o Brasil já apresenta esse grande contingente de pessoas acima do peso, o índice é maior entre as classes C e D. “Quando consideramos a faixa de renda e de escolaridade, temos mais obesos entre os mais pobres e menos escolarizados”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista concedida a blogueiros progressistas, em 21 de maio. Uma série de fatores faz com que as pessoas, cujo gasto com alimentação até pouco tempo pesava no orçamento, hoje estejam no grupo de risco de desenvolverem as chamadas doenças crônicas não transmissíveis, tais como hipertensão, diabetes e cardiovasculares.
O aumento do consumo de alimentos industrializados ricos em sódio, açúcares e gorduras é apontado como o principal elemento causador dessa situação. Além disso, o sedentarismo é cada vez maior entre a população, principalmente de baixa renda. “A pesquisa Vigitel mostrou que 30% das pessoas com mais de 12 anos de escolaridade fazem atividade física em seu tempo de lazer. Com menos de oito anos de escolaridade, só 14% praticam alguma atividade”, diz Padilha. “Isso porque, às vezes, a pessoa não vive num lugar seguro para fazer atividade física e não tem dinheiro para pagar academia.”
Por outro lado, para atender a chamada “nova classe média”, que em 2014 deve ser 57% da população entre 18 e 69 anos, com acesso a alimentos industrializados, o Sistema Único de Saúde (SUS) terá que se reorganizar. “Mas não é só o sistema de saúde, a sociedade também tem que se organizar, tem que ter ação da escola relacionada a isso, é preciso associar esporte com ação de lazer”, alertou o ministro da Saúde. Segundo Padilha, o Ministério convocou toda a indústria de alimentos para assinar um acordo para que a concentração de sódio seja reduzida. “O acordo visa à redução imediata de 15% em média, chegando até 30% naqueles produtos com maior concentração de sódio. No segundo semestre, será cobrada a redução de gorduras, ou seja, tem que ter o compromisso da indústria com isso”, diz ele.

Para Elisabetta, é importante que a indústria altere a composição dos alimentos para toda a população, não apenas para nichos de mercado. Hoje as classes A e B, que dispõem de mais recursos e acesso à informação compram alimentos diet, light, ricos em fibras, sem gorduras trans, orgânicos, etc. Segundo ela, com o aumento de renda, as classes C e D estão consumindo alimentos supercalóricos, com baixa qualidade nutricional. “Temos que pensar alternativas de deixar os alimentos saudáveis mais acessíveis”, diz. “Esta é uma vantagem do alimento industrializado, ele é relativamente muito barato, sacia com muito pouco recurso.”

A indústria já tem estratégias de marketing para atingir esse novo mercado consumidor. A Nestlé, por exemplo, tem um programa de revenda porta a porta. Ele é destinado a mulheres que passam com um carrinho vendendo kits com produtos da empresa. Elas ganham até um salário mínimo e meio.


Além do ato individual

“Os fatores ligados ao acesso à propaganda e a informações, além da necessidade de alimentação rápida, são determinantes no estado que estamos: um quadro de obesidade crescente e preocupante”, afirma a presidente do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), Rosane Nascimento. Para ela, os acordos com a indústria são muito tímidos: “Falta muito para a indústria ser entendida como uma real parceira. Ainda predomina a questão econômica acima de todos os outros interesses, não há uma preocupação com a saúde pública. A indústria vende alimentos da mesma forma que vende um sapato, ou qualquer coisa. Sem medir as consequências do que o alimento pode causar à população consumidora”.

Grandes cadeias de fast food, segundo Rosane, passaram a incluir em seus cardápios opções de salada e outros alimentos mais saudáveis, dando a impressão de que a responsabilidade é só do consumidor. “O indivíduo tem um papel, mas o ambiente tem que colaborar, precisa haver um ambiente saudável”, explica Elisabetta. Para ela, quando uma pessoa vai ao supermercado e escolhe algum produto alimentício não se trata de um ato tão individual assim, já que as pessoas são sensíveis diante da pressão da publicidade. “Como a culpa pode ser individual se o indivíduo é bombardeado por propaganda?”, questiona.

Tanto o Consea quanto o CFN, e diversas outras entidades da sociedade civil, defendem a regulação da publicidade de alimentos, especialmente para o público infantil. Seria uma forma de intervir na construção de um ambiente mais saudável para que o indivíduo decida o que deve comer. “As classes C e D se viram diante de uma nova realidade e não foram preparadas para fazer boas escolhas. Precisamos de medidas regulatórias e o governo não pode se omitir”, afirma Rosane, que sugere ainda campanhas educativas.

“A obesidade é causada por uma questão multifatorial. É uma questão dos hábitos, de sedentarismo, genética, mas também do impacto da publicidade de alimentos”, avalia Isabela Henriques, coordenadora do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana. Segundo ela, é preciso intervir nessas três frentes. “O aumento da obesidade está numa curva ascendente; se nada for feito, a tendência é aumentar.”

Mas, como mostrou a experiência da Resolução 24/10, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a regulamentação enfrenta pressões contrárias. “É um cabo de força complicado, não só no Brasil, mas globalmente”, avalia Elisabetta. A Resolução 24 previa que a indústria teria que colocar alertas nas embalagens com informações sobre os eventuais riscos que o consumo em excesso dos alimentos poderia causar. Mas a indústria alimentícia se juntou e conseguiu, por meio de liminar, anular a resolução, cujo conteúdo ainda é bem mais tímido do que países como a Inglaterra estão fazendo. Lá, uma lei de 2006 proibiu propagandas de alimentos com alto teor de sódio, açúcares e gorduras em programas televisivos destinados à faixa etária abaixo de 16 anos. O parlamento do Chile aprovou, em 21 de abril, um projeto de lei que cria regras para a publicidade de alimentos, proíbe para crianças menores de 14 anos, permitindo a veiculação só após as 22 horas. Nos Estados Unidos, foram lançadas diretrizes no início de maio também com o objetivo de restringir a publicidade destinada ao público infantil.


Direito a alimentação adequada

Para 79% dos pais, a publicidade de alimentos não saudáveis prejudica os hábitos alimentares das crianças. Esse foi o resultado de pesquisa do Instituto Datafolha, encomendada pelo Instituto Alana. Foram entrevistadas 596 pessoas, pais e mães de crianças de até 11 anos. Segundo o levantamento, 78% dos entrevistados acreditam que a publicidade desses produtos levam as crianças a “amolarem” seus pais para que comprem produtos anunciados, e 76% disseram que os comerciais dificultam o esforço de educar os filhos a se alimentarem de forma mais saudável.

Segundo Isabela, a população é lesada por uma publicidade enganosa, que atinge principalmente o público infantil. Além de a criança não ter discernimento para escolher, seu paladar está sendo formado por produtos que contêm realçadores de sabor e muitas vezes muito açúcar. “A indústria precisa assumir o impacto que gera na saúde pública”, afirma.

O Instituto desenvolve uma série de ações no Espaço Alana, no Jardim Pantanal, na periferia de São Paulo, Estado de São Paulo. Segundo a nutricionista do Instituto, Micheli Rangel Albuquerque, em 2010, 33,7% das 240 crianças atendidas pela creche apresentavam obesidade. “Apesar de oferecermos uma alimentação balanceada, na casa dessas crianças elas não têm acesso a frutas e outros alimentos saudáveis”, explica.

“Projetamos uma situação absolutamente descontrolada. Não haverá recursos para tratar pessoas que ficarão ou já estão doentes. São doenças que começam de forma silenciosa e trazem consequências sérias: perda da qualidade de vida, da capacidade de trabalho do indivíduo. Há um custo alto”, diz Elisabetta. Ela alerta que, quando se discute a regulamentação, “há um mito de que se quer acabar com a indústria ou cercear a liberdade de expressão”. “Certamente a indústria de alimentos trouxe ganhos. Mas hoje temos uma situação onde ela oferece produtos num cenário sem regulamentação, sendo que antes não tínhamos consciência e nem vivíamos os impactos que essas doenças trazem”.

Elisabetta explica que o direito à alimentação, incluído no ano passado entre os direitos sociais na Constituição, prevê não só a garantia de um país livre da fome e desnutrição, mas também de alimentação adequada. “Não podemos acabar com a fome e gerar doenças”, diz. “Hoje qualquer criança está tendo violado seu direito a alimentação adequada, pois há um conjunto de informações distorcidas formando seus hábitos alimentares.”

* Publicado originalmente pela Revista Fórum, edição 99, de junho de 2011.

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HUMANIZAÇÃO É TEMA DA 9ª CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE SAÚDE

A participação popular é indispensável para definir as políticas públicas de saúde. A partir dessa premissa, Rio das Ostras promove sua 9ª Conferência Municipal de Saúde, reunindo comunidade, autoridades e profissionais da área para debater os rumos da Saúde na cidade. A abertura será dia 1º de julho, às 18h, na Câmara Municipal, com a presença do prefeito Carlos Augusto. Dias 2 e 3, o evento acontece na Escola Municipal Maria Teixeira de Paula, no Jardim Campomar, a partir de 8h.

“Pautamos nossas políticas de saúde de acordo com as necessidades da população. A conferência é uma oportunidade para debatermos a fundo essas demandas e construirmos juntos, poder público e comunidade, a rede de saúde que desejamos”, disse o prefeito Carlos Augusto.

Durante a abertura, a Assessora da Área de Acolhimento e Humanização da Secretaria Estadual de Saúde, Mônica Guedes, vai proferir uma palestra sobre o tema principal da Conferência “Acolhimento e Humanização para o Crescimento da Promoção, Prevenção e Recuperação na Saúde”. O ex-presidente do Conselho das Secretarias Municipais do Rio de Janeiro (Cosems- RJ), Antonio Carlos Oliveira Junior (Maninho), falará sobre o panorama da Saúde de Rio das Ostras.

O secretário municipal de Saúde, Sérgio Manhães, explica que a escolha do tema se alinha às premissas da atual gestão. “Ao lado do desenvolvimento científico e tecnológico, a humanização do atendimento tem que ser prioridade para todos os gestores e está diretamente ligada à prevenção e à cura”, afirmou o secretário.

TEMAS - No dia 2, o evento começa com café da manhã e às 9h, o médico convidado Carmelindo Maliska irá ministrar uma palestra sobre Medicina Baseada em Humanidade.

A partir de 10h, começam as apresentações dos painéis relativos aos principais temas em debate da Conferência: “Saúde do Servidor”, “Atenção Básica de Saúde”, “Saúde Mental” e “Reabilitação”, assuntos que serão, em seguida, debatidos pelos grupos de trabalho, durante a tarde.

Os usuários do Centro de Reabilitação farão uma apresentação de dança sênior e técnicos da Secretaria de Saúde vão falar ao público sobre os programas e unidades do município. No último dia, a plenária reúne os participantes para leitura e aprovação dos relatórios dos grupos de trabalho e, à tarde, serão eleitos os novos conselheiros de saúde do município. O evento se encerra com o pronunciamento do secretário municipal de Saúde e com um almoço de confraternização.


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TAMBORES MARCAM VIDA DO QUILOMBO

Instrumento de percussão é usado em ritos de passagens e nas celebrações da vida e da morte

 A vida dos arturos é marcada pelos tambores. Rústicos e construídos na própria comunidade, eles soam nas festas e nos momentos que antecedem os rituais. Os toques acompanham as pessoas nos momentos de alegria e de tristeza, com refinamento musical passado de pai para filho. 

O tambor (Ngoma, nas línguas bantas) é provavelmente o mais importante instrumento musical africano. O som ritmado anuncia a chegada ou partida dos líderes, mantem o estado de ânimo no trabalho, celebra a vida e a morte, convoca as pessoas para reuniões e chama para a guerra e para a paz. Brasil, se tornou uma voz de contestação das senzalas.

“Quando as famílias negras chegavam escravizadas ao Brasil, eram separadas pelos brancos, que temiam a organização e a revolta. Mas os sinhôs não entendiam que os tambores são nosso laço de união, de comunicação e de ajuntamento”, diz João Batista da Luz.

Toque proibido

O som forte e incisivo dos tambores foi uma arma decisiva da resistência negra no período da escravidão, a ponto de seu toque ser proibido pelos brancos. Não adiantou, porque o batuque cerimonial e festivo se espalhou por todo o país, em diversas versões e manifestações.

Uma das tradições mantida pelos arturos é o candombe, um ritual de origem banto feito sob o som de três tambores sagrados, em que se evoca a força dos ancestrais. O ritual interno tem a responsabilidade de abrir as festas mais importantes da comunidade. A primeira é o reisado, em 6 de janeiro. A seguir vem os congos e moçambiques da Festa da Libertação, na segunda semana de maio, e a comemoração em louvor a Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 8 de outubro e que mobiliza mais de 20 guardas (grupos) de congos da região durante três dias.

 A última celebração de tambores é a festa do João do Mato, realizada em 15 de dezembro. Também conhecida como “festa da capina”, a comemoração, com a dança das enxadas e os batuques, marca simbolicamente o início do ano agrícola em uma comunidade atualmente com poucas plantações.

Sons e danças

“É um erro achar que Arturos faz folclore, que é uma cultura morta. Nós temos uma cultura viva, vibrante, que se renova a cada dia, com as crianças, os jovens e o ensinamento cotidiano dos antigos”, defende Jorge Antonio dos Santos, capitão da guarda de Moçambique. No centro do cortejo, é ele quem tem a responsabilidade de puxar os cânticos e conduzir o grupo, protegendo os membros do império.

 Jorge deixou o trabalho como operador de máquinas pesadas para atuar como gestor cultural junto à Secretaria de Cultura de Contagem. Na comunidade, tem a função de passar os ensinamentos do canto, instrumentalização e da dança às novas gerações. Assim como aprendeu do avô, do pai e dos tios, ensina os três filhos e as crianças da comunidade as origens, os momentos e os significados dos instrumentos, passos, cerimoniais, vestimentas e alimentos.

Na comunidade, os jovens estão aprendendo a criação de gungas, chocalhos sempre em números ímpares, feitos em metal ou com reaproveitamento de latinhas de tinta ou extrato de tomate, contendo bolinhas de aço ou ferro.

 Lembrança dos grilhões

 Presas por correias de couro (passadeiras) nos tornozelos ou abaixo dos joelhos, as gungas dialogam com os tambores e dão maior agilidade à dança. Nos passos do moçambique lembram os grilhões e argolas de ferro dos tornozelos dos escravos, que marcavam o ritmo do trabalho com os pés.
Para ajudar a manter a rica tradição cultural dos arturos, está sendo desenvolvido o projeto “Preservação das raízes do Pai Artur”, com apoio do Ministério da Cultura. A primeira das seis oficinas foi concluída em abril, com o estudo aprofundado da origem e função ritual de tambores, baquetas e gungas e a produção de instrumentos, entregues aos representantes de quatro guardas congadeiras. Em junho começam as oficinas de danças tradicionais, percussão, instrumentos, vestimentas, culinária tradicional e informática.

Fonte:www.brasildefato.com.br
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quarta-feira, 29 de junho de 2011

CONCENTRAÇÃO DE TERRAS, UMA INJUSTIÇA QUE SE PERPETUA NO BRASIL

  Macunaíma passou mais de seis anos sem falar. Quando o incitavam, exclamava:
                      — Ai! Que preguiça!... (Mário de Andrade).

Também fico assim, com preguiça, quando tenho de explicar de novo a mesma coisa. Todavia, é recorrente! Quando ouvimos a notícia da ocupação de terras por famílias que lutam por moradia ou trabalho, vem a mesma ladainha do senso comum: "O motivo é justo, o que não podemos apoiar é a violência, é a invasão de terra que já tem dono!”.

Ora, violência são a falta de informação e o preconceito. A grande mídia criminaliza os movimentos sociais que lutam pela posse da terra e os trabalhadores desinformados repetem o discurso das elites. Invasores são os grandes proprietários, rurais e urbanos, pois todo latifúndio resultou de privilégios obtidos junto ao poder do Estado ou da omissão dos governantes em exigir o cumprimento das leis, inclusive o pagamento dos impostos. Na melhor das hipóteses essas terras são fruto de herança, cuja transmissão ocorre com insignificante tributação, o que perpetua a desigualdade entre as pessoas e encobre os favorecimentos anteriores. Desafio alguém que me prove ter comprado e mantido um latifúndio nos moldes legais com dinheiro ganho honestamente e sem o favorecimento público.

Precisamos conhecer melhor a história de ocupação do nosso território e a forma como as mesmas elites controlam as propriedades no nosso país. Assim vamos entender a razão porque, mesmo sendo o Brasil um país de dimensão continental, os pobres não têm acesso a terra para trabalhar e morar.

A história da ocupação do nosso território determinou o modelo de concentração das terras existentes. Somente em 1850, já no Segundo Império, foi que tivemos a primeira lei brasileira a tratar do direito de propriedade. A conseqüência disso foi o cerco da terra que, infelizmente, passou a ser adquirida somente mediante compra. Se por um lado essa Lei 601/1850 exigiu a medição e o registro das terras - decisão justa -, por outro impediu aos trabalhadores o acesso à posse, especialmente os ex-escravos.

A exigência da medição e registro foi sistematicamente ignorada pelos grandes proprietários e governantes. Porém, isto tem uma conseqüência legal. Quem não registrou as outorgas de Sesmarias caiu em comisso, ou seja, perdeu o direito sobre elas que passaram a ser terras devolutas, que são terras públicas, destinadas, nos termos da Constituição de 1988, para a política agrícola e de reforma agrária.

Mas, vamos imaginar que o proprietário tenha medido e registrado essas terras. Assim, toda a extensão, desde a confirmação do registro, deveria estar cultivada ou aplicada a alguma atividade agrária, cumprindo o que determina a lei. O cumprimento da função social é uma exigência legal existente desde a promulgação do Estatuto da Terra, Lei 4.504/64. Nos dias atuais, a Constituição Federal, no Art. 186, diz que todo imóvel deve, simultaneamente, cumprir as obrigações legais quanto ao uso nos aspectos econômico, ambiental e social. A sanção para o descumprimento dessas obrigações é a desapropriação do imóvel para fins de reforma agrária.

Necessário aqui ressaltar que mesmo a exigência de cumprimento do aspecto econômico, que é a produtividade do imóvel, tem sido sistematicamente negligenciada pelo Governo Federal, sob pressão da bancada ruralista no Congresso Nacional. Os índices utilizados são ainda da década de 1970, o que permite a manutenção de atividades de baixa produtividade como é o caso da pecuária de extensão, uma das mais atrasadas de exploração agropecuária do país por ocupar extensas áreas, causando sérios danos ambientais e exercendo enorme pressão sobre as áreas de floresta nativa para a abertura de novas pastagens. Além de tudo isso gera poucos postos de trabalho.

Os demais incisos do Art. 186 também são abusivamente desrespeitados. Inúmeros são os conflitos agrários que resultam na morte de trabalhadores. Os criadores de gado e as empresas do agronegócio fustigam as comunidades tradicionais, como ribeirinhos, extrativistas, indígenas e quilombolas. A degradação ambiental e o trabalho escravo são sistematicamente ignorados pelo Poder Judiciário - como motivo para a desapropriação -, que normalmente sacraliza o direito de propriedade ou a produtividade do imóvel. Esvazia-se deste modo os demais aspectos da função social da terra.

É bom refrescar na memória também que imensas áreas foram doadas às empresas nas décadas de 1960 a 1980. Os militares, utilizando-se do mecanismo de renúncia fiscal, incentivaram grandes empresas estrangeiras a aplicarem no desenvolvimento rural para contrapor à reforma agrária. O desenvolvimentismo fez com que empresas como a Volkswagen, uma fabricante de automóveis, passasse a ser dona de grandes áreas na Amazônia. Em 1988, o legislador constituinte estabeleceu, no Art. 51 do ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias -, um prazo de três anos para a revisão de todas as alienações e concessões de terras públicas acima de três mil hectares realizadas naquele período. Contudo, isso nunca foi feito.

Estudos mostram ter ocorrido durante a ditadura militar o maior êxodo rural já registrado, quando mais de 40% da população rural foi expulsa do campo para as periferias das grandes cidades. A propriedade da terra ficou ainda mais concentrada, enquanto uma massa de trabalhadores sem qualificação para o trabalho urbano passou a disputar um posto de trabalho e moradia nas grandes cidades.

Na teoria jurídica, a propriedade compõe-se de dois aspectos, um subjetivo que é o registro do imóvel no Cartório, e o outro objetivo que é fato do uso. Este, comprovado por meio do cumprimento da função social. O critério objetivo é o modo de o proprietário retribuir à sociedade o benefício legal que lhe permite o uso exclusivo do bem. Juridicamente, então, um imóvel que não cumpre a função social está vazio. Ninguém tem a sua posse. Como conseqüência lógica não pode o Poder Judiciário, apenas com base no registro, mandar reintegrar na posse quem está descumprindo a lei. Por estas razões não podemos dizer que são invasores os trabalhadores que lutam por esse direito. Invasores são aqueles que possuindo apenas o registro intitulam-se legítimos proprietários e ainda por cima, descumprindo a função social, reivindicam em juízo a proteção possessória.

Até quando vamos fechar os olhos para a concentração de terras, essa que é uma das maiores fontes de injustiça social no Brasil? Temos de dar um basta a essa realidade que se perpetua desde a colônia. Precisamos apoiar a luta pela democratização da terra. Precisamos defender e apoiar os que lutam pelo direito fundamental da moradia. Precisamos lutar ao lado dos camponeses que produzem os alimentos que vêm para a nossa mesa, protegendo o meio ambiente e fazendo a justiça que traz a paz social.

Delze dos Santos Laureano, Advogada, professora de Direito Agrário na Escola Superior Dom Hélder Câmara, em Belo Horizonte, MG; Integra a Rede Nacional dos Advogados Populares – RENAP

Fonte: http://www.adital.com.br/

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ENERGIAS RENOVÁVEIS SÃO INSTRUMENTOS DE COMBATE À POBREZA



por Sérgio Abranches, do Ecopolítica

No Fórum de Energias Limpas da Ásia, realizado na semana passada, em Manila, nas Filipinas, representantes de mais de 50 países, organizações multilaterais e especialistas, um dos consensos foi que as energia renováveis são um instrumento indispensável à redução da pobreza no mundo. O Fórum, sexto da série, foi organizado pelo Banco de Desenvolvimento da Ásia (ADB), pela USAID e pelo World Resources Institute, WRI.

Perto de 1,5 bilhão de pessoas não têm acesso a eletricidade no mundo, ao final da primeira década do século 21. Em torno de 2,5 bilhões não têm acesso adequado a energia. Eletricidade é prerrequisito à elevação do nível de vida das famílias. Ela permite uma série de procedimentos elementares, como preservar alimentos e medicamentos, e a serviços essenciais, como os de comunicação. A energia limpa é um instrumento essencial ao enfrentamento do grande desafio deste século, que é a mudança climática. E é um instrumento para que enfrentemos o desafio da erradicação da pobreza, o grande fracasso do modelo de desenvolvimento do século 20.

É clara a conexão entre os dois desafios. O agravamento do perigo associado às mudanças climáticas com a aceleração do aquecimento global é uma evidente sequela do modelo de desenvolvimento que levou boa parte do mundo ao maior avanço material da história contemporânea, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. A persistência da pobreza é a marca mais nítida das limitações sociais deste modelo. Agora, temos como desafio mudar o modelo de desenvolvimento no século 21, de modo a enfrentar, com sucesso esses dois desafios.

As energias renováveis, especialmente as de emissões zero ou muito baixas, como a biomassa, permitem soluções locais, no âmbito comunitário, descentralizadas. Também, se prestam a soluções em escala intercomunitária, com pequenas redes, fora do sistema geral.

Precisamos começar a discutir a sério soluções energéticas limpas e descentralizadas no Brasil. A grande deficiência do “Luz para Todos” é que não é para todos, porque só alcança aqueles que estão próximos da rede geral.

** Publicado originalmente no site Ecopolítica.


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segunda-feira, 27 de junho de 2011

O ENCANTO DOS ORIXÁS



 por Leonardo Boff

Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela  alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno,  mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos  (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação,  pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

Leonardo Boff é autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.
 
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MIGRAÇÃO E DIVÓRCIO ENTRE TRABALHO E EMPREGO

"Para ser grande sê inteiro:Nada teu exagera ou exclui;Sê todo em cada coisa,Põe quanto és no mínimo que fazes.Assim em cada lago a lua todaBrilha, porque alta vive”.Fernando Pessoa (Odes de Ricardo Reis)

Os deslocamentos humanos de massa costumam fragmentar não apenas o núcleo familiar ou de parentesco. Eles fragmentam também, por uma parte, o desejo de um emprego estável com o sonho a ele associado e, por outra, o trabalho feito de serviços eventuais, de bicos, suado gota a gota. Evidencia-se, nada mais nada menos, o divórcio entre trabalho e emprego.

1. O ser e a função
O poema do grande poeta português, que serve de epígrafe a estes parágrafos, soa bem apropriado para descrever o sentimento do ser humano, seja na sociedade moderna ou pós-moderna, seja no universo urbano ou no desenraizamento provocado pela migração. Em lugar do ser prevalece a função: o papel ou os papéis que desempenhamos na sociedade. Vale o aparentar, o fazer, o ter, o comprar, o vestir, o portar-se... Enfim, a pessoa se mede pelo que é capaz de produzir e consumir. Boa ou má perfomance, eis o termo para o sucesso ou insucesso pessoal. A quantidade e o cálculo substituem a qualidade. Tempo e espaço são matematizados, vale dizer, mercantilizados. Segundos e milímetros equivalem a centavos, horas e metros tornam-se moeda corrente. Tudo se reduz a dinheiro, o grande denominador comum, que permite a troca de uma coisa por outra. E também, evidentemente, de um trabalhador por outro, dependendo da capacidade de produção. O motor do lucro e da acumulação de capital move desejos e interesses, lutas e sonhos, destinos e existências.

O ser se esconde e se neutraliza atrás da função, da profissão, da aparência ou de uma potencialidade adormecida. Em termos metafóricos, é como se cada um, em seu armário pessoal, ao lado das variadas peças do próprio vestuário, guardasse uma série de máscaras para as diferentes ocasiões de seu desempenho. Há uma para o trabalho, outra para o bar e os amigos, uma terceira para a família, outra destinada aos momentos festivos, e assim por diante. Até certo ponto, isso é comum e bem humano. Ninguém é obrigado a desnudar-se diante dos estranhos. Todos nós, de uma forma ou de outra, sempre andamos com algum tipo de máscara. Semelhante comportamento constitui uma defesa natural contra a curiosidade alheia. Alma alguma expõe sua nudez em praça pública, à curiosidade alheia.

O problema começa quando não conseguimos nos reconhecer em meio a tantos desafios, a tantas mudanças e a tantas funções a que, diariamente, somos chamados. Ou seja, quando perdemos o eixo da própria existência. Tentemos imaginar uma roda em que os raios não convergem para o centro. Fatalmente a roda se quebra, se fragmenta. Aí está o ser fragmentado. Não se trata daquele que desempenha várias tarefas, nem tampouco daquele que desempenha tarefas diferenciadas. Trata-se daquele que, em suas múltiplas atividades, não possui um foco organizador, um eixo que reúna os raios de seu intenso agir. Sabemos que não poucos trabalhadores, especialmente em níveis degradantes, precários ou de escravidão, morrem pelo excesso de trabalho. Entretanto, excetuando esses extremos, o que nos estressa e mata em geral não é o trabalho em si, mas a dispersão das distintas tarefas. Sentimo-nos puxados em direções opostas e nos fragmentamos, sem uma realização mais profunda que oriente nossas energias rumo a um horizonte de sentido.

2. Migração e divórcio entre trabalho e emprego
No caso da população migrante, a fragmentação ganha uma carga mais pungente. Deixar sua família e cortar as raízes mergulhadas, há décadas, na terra em que nasceu e enterrou seus ancestrais é algo doloroso, quando não traumático. O trabalhador, nesse processo, rompe com laços tradicionais e "até mesmo com as vantagens do grupo primário de vizinhança”, diz Lewis Mumford em sua obra clássica A cidade na História. Por mais que tente recompor tais laços nos lugares de destino, o anonimato, a solidão, o isolamento e a saudade costumam seus companheiros de vida e trabalho. "É aí que realmente vamos encontrar a Multidão solitária”, continua o mesmo autor, referindo-se ao livro de David Riesman. Esse esgarçamento do tecido familiar, de parentesco ou de compadrio se acelera nas grandes cidades ou nas megalópoles, de nossa civilização metropolitana. Não deixa de se manifestar, também, i com igual intensidade, nos acampamentos de refugiados, nas casas de migrantes, no trabalho dos marítimos ou caminhoneiros e nos alojamentos de trabalhadores temporários, por exemplo. Sempre há o sonho de voltar a casa, é bem verdade, mas as condições de abrigo e de serviços duros e mal pagos contribuem para aumentar o peso da distância e a ausência de relações de afeto.

De fato, a migração temporária representa um dos cenários mais emblemáticos do que se poderia chamar de divórcio entre trabalho e emprego. Aqui entendemos por emprego um contrato entre as duas partes que dê um mínimo de estabilidade. Em outras palavras, um emprego no sentido pleno da palavra permite ao trabalhador planejar seu futuro, quer em termos de casamento e família, quer em termos de adquirir um terreno e construir sua casa. Emprego estável é sinônimo de segurança quanto à vida. Já o emprego temporário, seja ele vinculado à agroindústria ou agronegócio, à construção civil ou ao trabalho doméstico em geral, dificilmente permite sonhar com um futuro mais promissor. No máximo garante uns trocados para pequenas melhorias na casa ou na saúde da família, para pagamento de dívidas ou para comprar uma moto, por exemplo. Nesse caso, trabalho não significa propriamente emprego. Torna-se evidente o divórcio entre esses dois conceitos. Vale o mesmo, aliás, para todos os trabalhadores que, num quadro de desemprego, vivem de eventuais subempregos ou de bicos. Procuram emprego e se deparam com trabalho, e este em tais ocasiões quase sempre é redobrado. O subemprego, os serviços de bico ou temporários que, via de regra, submetem homens e mulheres (quando não crianças) a condições precárias é como que o símbolo dessa separação entre trabalho e emprego.

E o migrante, sujeito em geral aos serviços mais sujos e pesados, mais perigosos e mal remunerados, evidencia o divórcio entre um emprego duradouro e o trabalho sempre instável, inseguro, degradante e precário. A agricultura, em especial, conta com essa mão-de-obra temporária, na medida em que ela serve à sazonalidade do plantio e da colheita. Constata-se isso facilmente no corte de cana, na colheita da laranja e do café... Enfim nas safras agrícolas em geral. O mesmo vale para as grandes obras de construção civil, como também para os serviços domésticos ou para os bastidores do turismo: hotéis, restaurantes, serviço de camelô nas praias, etc. Igualmente o comércio sazonal, com piques em determinadas datas do ano (Natal, dia da criança, dia das mães e dos pais) costuma contar com esse tipo de empregado a varejo. Em todos esses casos, o trabalhador vive na corda bamba: por um lado, vê-se submetido à superexploração de suas potencialidades de trabalho, por outro, o emprego não lhe confere fôlego largo para programar um futuro estável para a família.

3. Fragmentação no Mundo do trabalho
Mas o divórcio entre trabalho e emprego não atinge somente o trabalhador migrante, imigrante ou temporário. Embora estes o sintam em primeiro lugar e com maior evidência, tal divórcio ocorre também na classe trabalhadora em geral. É próprio de cenários de crise e forte desemprego. Termos como globalização da economia, terceirização, flexibilização, entre outros, tendem a quebrar a espinha dorsal da organização dos trabalhadores e do sindicalismo em geral. Debilitados e fragilizados, eles passam a conviver com situações cada vez mais precárias e instáveis. Resulta que o emprego como garantia sólida para a ascensão social dá lugar a uma série de trabalhos eventuais e/ou bicos. Chega-se assim a uma proporção perversa: quanto maior o gasto de energias, menor a possibilidade de prever e remediar a vida futura. Não é incomum que esse divórcio acarrete outros tipos de separação, tais como, por exemplo, entre amor e sexo, entre matrimônio e amor, tempo livre e lazer; entre existência real e virtual, entre o ser pessoa e função social. Na impossibilidade de organizar a vida e o futuro, ambos se quebram, escorrem por entre os dedos.

Sendo obrigado a aceitar o que vem pela frente, dadas as condições desfavoráveis, a fragmentação entre trabalho e emprego, de um lado, e realização pessoal e familiar, por outro, fragmenta igualmente a própria pessoa. A precariedade no mundo do trabalho leva cada trabalhador a uma espécie de "salve-se quem puder”.Vive-se de oportunidades eventuais, de respostas imediatas para problemas igualmente imediatos. Vale insistir, o trabalhador vê-se mutilado na capacidade de programar, a largo prazo, sua vida e a de sua família. Incapacitado de encontrar um fio condutor para a própria existência, esta se rompe, converte-se em cacos, pedaços isolados. A instabilidade no emprego estilhaça qualquer projeto de vida. Quando o trabalho se desvincula de um contrato sólido, estável e de relativa duração, também o ser humano se desvincula de suas funções. Enquanto o homem e a mulher, por seu esforço, sonham alcançar novo patamar, a realidade se revela adversa, quebrada, fragmentada.

Divórcio semelhante sofre o emprego agrícola e a terra. Por trabalhar na propriedade que não lhe pertence, os pés do lavrador estão ligados ao chão, mas a cabeça encontra-se em outro lugar. Coisa comum na juventude rural, a qual, ainda ligada ao campo, sonha com os apelos, a sedução e as luzes da cidade. A falta de uma política agrária e agrícola, associada à falta de serviços de educação e escola, faz com que não poucos trabalhadores rurais se encontrem fisicamente vinculados à terra, mas com perspectivas de fugir em direção a outra forma de vida. É dessa separação entre terra e futuro, ou entre trabalho e emprego, que nasce muitas vezes o desejo de alcançar os países centrais, particularmente Estados Unidos, Europa e Japão. Enquanto a terra e o trabalho sobre ela representam uma instabilidade recorrente, o emprego num país de primeiro mundo, ou na cidade grande, se apresenta como um trampolim para subir na vida. O sonho da mobilidade social desencadeia a mobilidade territorial, mas pode resultar no pesadelo de trabalho pesado sem emprego fixo e estável.

Fonte:www.adital.com.br
Alfredo J Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais

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A REVOLUÇÃO DAS MÍDIAS SOCIAIS

 
 
A internet está mudando o modo como são feitos os negócios, as relações interpessoais e, principalmente, o modo como as pessoas veem o mundo.
Erik Qualman, o autor do livro Socialnomics, produziu uma série de vídeos chamada Social Media Revolution (ou Revolução das Mídias Sociais) para mostrar a importância da rede no dia a dia das pessoas.
O último filme, de apenas dois minutos, dá uma mostra do que aconteceu no mundo on-line entre o fim de 2010 e o primeiro semestre de 2011.

As mídias sociais são sobre pessoas. Mais de 50% da população mundial tem menos de 30 anos.
Facebook ultrapassou Google em tráfico de dados por semana, e isso tem impacto em como nos comportamentamos off line.
Um em cada cinco casais se conheceram na internet.
Três em cada cinco casais gays se conheceram na internet.
O Facebook é a principal causa de um a cada cinco divórcios.
O que acontece em Vegas fica no Facebook, Twitter, Flickr, Youtube...
Estudantes do jardim de infância estão aprendendo com iPads, não com lousas.
Se o Facebook fosse um país, ele seria o terceiro maior do mundo.
Mas o Facebook, o Twitter, o Youtube e o Google ainda não são aceitos na China.
O LinkedIn ganha um novo membro a cada segundo.
"-Nós não temos uma alternativa se utilizamos ou não as mídias sociais, a questão é como nós as utilizaremos bem", Erik Qualman.
Lady Gaga, Justin Bieber e Britney Spears tem mais seguidores no Twitter do que a população inteira de países como Suécia, Israel, Grécia, Chile, Coreia do Norte e Austrália.
Cerca de 50% do tráfego de internet móvel do Reino Unido é usado para o Facebook, agora imagine se isso for utilizado por usuários com más experiências.
Mais de 37 milhões de pessoas assistiram o comercial do Volkswagen Darth Vadar que passou no intervalo da final do Super Bowl de 2011 (dos Estados Unidos) - no Youtube.
E o garotinho que interpretou Darth Vadar nunca assistiu Star Wars.
O Ford Ecplorar Lauch gerou mais visualizações no Facebook do que um comercial do Super Bowl.
As gerações Y e Z consideram e-mails ultrapassados, alguns universitários pararam de distribuir suas contas de e-mail.
Os leitores de eReaders ultrapassaram o número de leitores de livros.
Jogadores de mídias sociais irão comprar U$6 bilhões de bens virtuais em 2013.
Frequentadores de cinema comprarão apenas U$2,5 bilhões em bens reais.
O Youtube é a segunda maior ferramenta utilizada no mundo.
Se o Wikipedia fosse um livro, ele teria mais de 2,25 milhões de páginas e levaria mais de 123 anos para ser lido.
90% dos usuários on-line confiam em recomendações de produtos.
Apenas 14% confiam em comerciais.
93% dos marketeiros utilizam mídias sociais para os negócios.
Bem-vindo à Revolução das Mídias Sociais.

Fonte:www.adital.com.br
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DESMATE AMAZÔNICO PARA PLANTIO DE SOJA CRESCEU 85% EM 2011


O desmatamento para plantação de soja na Amazônia cresceu 85% em 2011 em relação ao ano passado. Os dados são de um relatório de monitoramento que a indústria faz anualmente na região, ao qual a Folha teve acesso.

Eles indicam que o grão está voltando a ser uma fonte de pressão sobre a floresta, uma situação que tende a se agravar nos próximos anos com o preço aquecido no mercado internacional, a demanda chinesa e obras de infraestrutura planejadas para facilitar o escoamento da safra.

Segundo o relatório da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), a área desmatada para a produção de soja em 375 mil hectares, monitorados em 53 municípios por satélite e avião, foi de 11.653 hectares na safra 2010/2011.

Em 2009/2010, ela era de 6.295 hectares, numa área monitorada 24% menor.
FIGURAS GEOMÉTRICAS

O número de "polígonos", ou áreas desmatadas maiores que 25 hectares ocupadas com soja, subiu de 76 no ano passado para 147 este ano, um aumento de 93%.

Alarmadas com a situação, ONGs pedirão no mês que vem, quando o relatório será divulgado oficialmente, o endurecimento dos critérios ambientais para a soja.

MORATÓRIA

A soja tem dado trégua à Amazônia desde 2006, quando organizações ambientalistas e as principais "traders" (comercializadoras) de soja do país, representadas pela Abiove, firmaram uma moratória. Pelo acordo, as empresas se comprometeram a não comprar soja proveniente de novos desmatamentos.

A moratória tem vigorado com sucesso, aliada aos preços baixos do grão no mercado internacional.

Nos últimos dois anos, porém, o preço da soja voltou às alturas: mais que dobrou.
"Nunca esteve tão alto nos últimos 70 anos", disse à Folha o senador Blairo Maggi (PR-MT), um dos maiores sojicultores do mundo. Animados, alguns produtores voltaram a desmatar.

Para Bernardo Pires, coordenador ambiental da Abiove, as expectativas do setor produtivo em relação ao Código Florestal também influenciaram o desmate.

"Está ficando mais difícil e mais caro monitorar o cumprimento da moratória", disse Rafael Cruz, do Greenpeace. "O crescimento das áreas desmatadas é exponencial."

A ONG realiza todo ano sobrevoos de áreas identificadas pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) como potenciais desmatamentos para grão, para validar os dados obtidos pelos satélites.

Segundo Cruz, neste ano o trabalho consumiu tantas horas de voo que a coisa está ficando impraticável.

Um desses sobrevoos, realizado na semana passada em Mato Grosso, flagrou áreas desmatadas ou em alto grau de degradação -matas queimadas para plantio futuro- contíguas a fazendas que estão na "lista suja" da Abiove.

Isso aumenta a quantidade de soja "suja" no mercado, misturada à soja considerada "legal", disse Cruz.

NEGÓCIO DA CHINA

Pires afirma que os produtores que querem escapar da moratória encontram cada vez mais refúgio no mercado chinês. "A China não está preocupada com desmatamento. Chinês quer preço."

Tanto ele quanto Cruz afirmam que o futuro da moratória só estará garantido pela adoção de mecanismos mais rígidos de controle ambiental na região afetada.

O Greenpeace e outras ONGs defendem a adoção do CAR (Cadastro Ambiental Rural) como critério mínimo para a moratória.

Pelo CAR, as fazendas declaram aos órgãos ambientais estaduais os limites de suas áreas de mata nativa por imagem de satélite -e ficam mais sujeitas a fiscalização. As "traders" têm evitado fazer essa exigência, com medo de reação dos produtores.

Fonte: Folha de São Paulo


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LÁ TÁ ROLANDO : RESSACA DO JAZZ E BLUES



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terça-feira, 21 de junho de 2011

RIO DAS OSTRAS - FESTIVAL JAZZ E BLUES 2011


Apontado pelos críticos como um dos melhores festivais do gênero no país, o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival chega à nona edição. De 22 a 26 de junho, uma seleção dos melhores instrumentistas e intérpretes da atualidade se apresentará em quatro palcos montados ao ar livre.

O festival, realizado pela Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio, com produção da Azul Produções, entrou para o calendário oficial de eventos da Secretaria de Estado de Turismo, devido a sua importância.O Festival é patrocinado pela Lei de Incentivo da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro (somando forças) e da V&M do Brasil.

                        

Este ano o quarto palco na Praça São Pedro se consolida como o espaço dos novos talentos do jazz e do blues nacional. Serão cinco dias de Festival, 29 shows gratuitos, e mais de 60 horas de boa música, com apresentações às 11h15 (Praça de São Pedro), 14h15 (Lagoa do Iriry), 17h15 (Tartaruga) e 20h (Costazul).

Os melhores músicos do mundo estarão no melhor Festival do Brasil.


Programação

DIA 22 de junho Quarta
PCA SÃO PEDRO 17h
Expresso Santiago -

COSTAZUL 20h
- Orquestra Kuarup
Orleans Street Jazz Band -
Plataforma C -
Igor Prado Blues Band -

DIA 23 de junho Quinta
PCA SÃO PEDRO 11h30
Maracá -
IRIRY 14h15
Nuno Mindelis -
TARTARUGA 17h15
Jose James -
COSTAZUL 20h
Ricardo Silveira -
The Saskia Laroo Band -
Azymuth e Léo Gandelman -
Bryan Lee-

DIA 24 de junho Sexta
PCA SÃO PEDRO 11h30
Blues Groovers & Cristiano Crochemore -
IRIRY 14h15
Tommy Castro Band -
TARTARUGA 17h15
Nicholas Payton Sexxxtet -
COSTAZUL 20h
Jose James -
Jane Monheit -
Yellowjackets -
Nuno Mindelis -

DIA 25 de junho Sábado
PCA SÃO PEDRO 11h30
Rodrigo Nézio & Duocondé -
IRIRY 14h15
The Saskia Laroo Band -
TARTARUGA 17h15
Yellowjackets -
COSTAZUL 20h
ROBERTO FONSECA Live in Marciac -
Nicholas Payton Sexxxtet -
Medeski, Martin & Wood c/ Bill Evans -
Tommy Castro Band -

DIA 26 de junho Domingo
PCA SÃO PEDRO 11h30
Thiago Ferté Quarteto -
IRIRY 14h15
Bryan Lee -
TARTARUGA 17h15
Medeski, Martin & Wood c/ Bill Evans -


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ECONOMIA VERDE



O que se quer com a economia verde?


por Leisa Perch

No próximo ano, comemora-se o vigésimo aniversário da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992 no Rio de Janeiro e da Agenda 21.

Há vinte anos, líderes mundiais uniram-se em torno de um compromisso global que sinalizou uma mudança fundamental no desenvolvimento. Uma avaliação honesta sugere que, embora avanços tenham sido feitos e as inovações tenham ocorrido, temos fracassado com frequência em consolidar novas estruturas de macropolítica que representem verdadeiramente uma mudança nos negócios. Anos depois, danos ambientais foram estimados em US$ 6,6 trilhões somente em 2008 (Pnuma, 2010) e a Agência Internacional de Energia indica que as emissões de gás carbônico (CO2) em 2010 foram as maiores já registradas. No próximo ano, a Conferência Rio+20 não pode ser business as usual, como dizem os americanos quando se referem à forma tradicional de fazer negócios. Há falta de credibilidade entre os países, além da percepção de responsabilidades e capacidades diferenciadas.

A Rio+20 nos fornece uma oportunidade para: (1) manter o foco no desenvolvimento centrado nas pessoas e dar continuidade aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM); (2) realizar uma revisão crítica no que tem dado certo e as causas das nossas falhas; e (3) fazer da inclusão social um tema central nas discussões. É por essa razão que o foco no quadro institucional é tão importante quanto a economia verde em si. Sem mecanismos fortes e eficazes de governança, provavelmente as ferramentas tradicionais de negociação levarão os esforços para uma economia mais verde por água abaixo.

Muitas vezes tratada como importante, mas não como prioridade estratégica, a redução da pobreza, a inclusão dos grupos marginalizados e a igualdade de gênero devem agora passar diretamente para o centro do debate. Falhamos muitas vezes ao não encarar o modo com que a pobreza obriga os pobres a depender exclusivamente dos recursos ambientais para a subsistência e sobrevivência ou como fatores que levam ao crescimento dependem da qualidade e quantidade dos recursos naturais. Na África Subsaariana, 96% da população depende da agricultura pluvial. Atualmente, mais de um bilhão de pessoas vivem com menos de US$ 1,25 por dia, mais de 2,6 bilhões de pessoas não têm acesso às instalações de saneamento básico e higiene, e, na África, mulheres gastam 4 bilhões de horas para coletar água anualmente (ActionAid, 2009). Na África Subsaariana, cerca de 140 milhões de pessoas vivem com a ameaça constante de secas ou inundações (Pierro e Desai, 2008:123).

Então, o que realmente precisamos para chegar a uma economia verde, nacional e globalmente?

Embora avanços tenham sido feitos e as inovações tenham ocorrido, temos fracassado com frequência em consolidar novas estruturas de macropolítica que representem verdadeiramente uma mudança nos negócios.

Medidas que não prejudiquem ainda mais as populações pobres que já sofrem a cada choque externo. Devemos ter em mente que as necessidades das pessoas com deficiência, pessoas vivendo com HIV/aids e os povos indígenas são distintos de outros grupos minoritários. O progresso alcançado por meio do acesso universal a medicamentos deve ser complementado com acesso a nutrição e moradia para esses grupos, de forma segura, confiável e constante.

Deve ser dada atenção à segurança econômica das mulheres. Há uma tendência no impacto direto na saúde e no desenvolvimento dos filhos e na família em geral. Isto significa também criar um processo dinâmico de crescimento e de desenvolvimento rural e sustentável, aliviando a necessidade de muitas famílias se deslocarem para áreas urbanas em busca de trabalho e renda. Em muitos casos, homens deixam para trás esposas com a responsabilidade de, sozinhas, manterem seus familiares.

Expansão, inovação e apoio às tecnologias de pequena escala. Isso permitirá que pequenos agricultores, além de pequenas e microempresas, façam uma transição mais rápida para a adoção de princípios “verdes” no modo de produção e comércio. Nos países africanos, como em outros países em desenvolvimento, a agricultura familiar domina a paisagem agrícola, contribuindo significativamente para a renda rural.

Que o mercado integre princípios mais éticos, incluindo aqueles de responsabilidade social. Há movimentos no Brasil sobre a Economia Solidária e em outros países existem vários pactos entre o governo, o setor privado, trabalhadores e a sociedade civil. Para que todos possam executar seus papéis de maneira eficiente e em sintonia, são necessários princípios e uma visão em comum. Mecanismos institucionais podem dar suporte e facilitar o desenvolvimento de princípios acordados mutuamente e ainda reponsabilizar os parceiros.

Quanto a empregos, o trabalho não deve ser apenas “verde” em termos “mais limpos”, mas também decentes, com remuneração justa, segurança e acessibilidade. Nos países em desenvolvimento, 82% das pessoas com deficiências vivem abaixo da linha de pobreza (ONU). Em uma economia verde o emprego dessas pessoas necessita de atenção especial.

Para avançar, o desenvolvimento como um todo deve: (1) mitigar os principais impactos da mudança ambiental, independente de sua forma, inclusive as mudanças climáticas; (2) proteger o progresso econômico e social alcançado, incluindo os riscos e benefícios das ações para o desenvolvimento, evitando tanto “aproveitadores” quanto a “sobrecarga dos mais pobres”; e (3) garantir a compatibilidade das ações de desenvolvimento em vários níveis. Ao deixar de se fazer isso, as possibilidades de se alcançar o “verde” de forma temporária e transitória aumentam, com pouca chance de um progresso contínuo. O desafio para o Rio+20 é definir pelo menos respostas concretas para algumas dessas questões fundamentais.


* Leisa Perch é especialista em Políticas Públicas e coordenadora da área de Desenvolvimento Rural e Sustentável do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo/Pnud (IPC-IG).

** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


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