domingo, 31 de agosto de 2014

Projeto Livre.Ria incentiva a leitura e a ocupação de espaços públicos

Da Agência Brasil

Para ocupar os espaços públicos, incentivar a leitura e ainda renovar os títulos da sua biblioteca, foi lançado hoje (31) o projeto Livre.Ria. A primeira edição aconteceu durante todo o domingo na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro, com música ao vivo, piquenique e contação de histórias para as crianças. Tudo de graça.

A biblioteca colaborativa e itinerante contou com um acervo inicial de 300 títulos, doados por uma editora e por sebos da cidade. Quem doar dois livros de literatura pode escolher um e levar pra casa. Uma das idealizadoras do projeto, Bárbara Soledade explica que o objetivo é retomar o contato com o livro e o prazer da leitura ao ar livre, deixado de lado em tempos de internet, tablets, smartphones e leitura online.

“Criando ambientes acolhedores em espaços públicos da cidade, a gente traz livros e as pessoas participam. A gente tem uma estante com 300 títulos, e a cada dois livros doados as pessoas podem levar um para casa. Com o processo colaborativo a gente vai abastecendo a prateleira. Esta é a primeira edição do projeto”.

De acordo com Bárbara, a ideia é tornar o evento quinzenal a partir de outubro, ocupando outros espaços da cidade. “Nosso intuito é que aconteça a cada 15 dias a partir outubro. A ideia e que seja itinerante, rodar o Leme, Arpoador, Aterro do Flamengo, a Praça Paris, o Parque de Madureira, a Quinta da Boa Vista. Nosso intuito é realmente andar com a biblioteca para que a população tenha acesso aos livros”.

A estudante de artes Nathasha Granja, 18 anos, não soube do evento antes de sair de casa e não tinha livros para trocar, mas aproveitou o espaço para ler o que levou, enquanto os pais corriam em volta da lagoa. “Eu leio muito, desde os 13 anos. Achei o projeto bem interessante, é uma forma de estímulo também. Eu comecei na leitura porque meus pais sempre me levavam a livrarias, pegavam os livros e liam para mim. E foi indo, comecei a sair dos livros da escola e me apaixonei".

O pequeno Benício, de 4 anos, levou dois livros de sua mãe e escolheu Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, para levar para casa. Ele disse que gosta de ler histórias de fantasmas e brincou de se esconder atrás das estantes de livros. Mãe do pequeno leitor, a arquiteta Fernanda Del Monte elogia a iniciativa. “É fantástica, maravilhosa. Ele adora ler, desde muito novinho, gosta muito de Eva Furnari, já leu Pedro Bandeira também".

A divulgação do projeto Livre.Ria é feita pelas redes sociais e a data da próxima edição ainda não foi definida.


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A porção feminina de Deus

Por Leonardo Boff

Certa madrugada insone, retomei meu  trabalho costumeiro ao computador. De repente, pretendi ter ouvido, não sei se do mundo celestial ou se de minha mente em  estado alterado, uma voz, em forma de sussuro, que me dizia: “Filho, vou te revelar uma verdade que estava sempre lá, no meu evangelista Lucas, mas que os olhos dos homens, cegados por séculos de patriaracalismo, não podiam enxergar”.  

“Trata-se da relação íntima e inefável entre Maria e o Espírito Santo”. E a voz continuava sussurando: “Aquele que é terceiro, na ordem da Trindade, o Espírito Santo, é o primeiro na ordem da criação. Ele chegou antes  ao mundo; só depois veio o Filho de Deus. Foi o Espírito Santo, aquele mesmo que pairava sobre o caos primitivo e que de lá tirou todas as ordens da criação. Pois desse Espírito Criador, se diz pelo meu evangelista Lucas: "Virá sobre ti, Maria, e armará sua tenda sobre ti; por isso, o Santo gerado será chamado Filho de Deus”. “Armar a tenda”, como sabes, significa morar definitivamente. Se Maria, perplexa, não tivesse dito o seu “sim”, faça-se segundo a tua palavra, o Filho não se teria encarnado e o Espírito não se teria feminilizado”. 

“Vede, filho, o que lhe estou dizendo: o Espírito veio morar definitivamente nesta mulher, Maria. Identificou-se com ela, se uniu a ela de forma tão radical e misteriosa que dela começou a se plasmar a santa humanidade de Jesus. O Espírito de vida produziu a vida nova, o homem novo, Jesus. Para ti e para todos os fiéis é claro que o masculino através do homem Jesus de Nazaré foi divinizado. Agora, vai lá no evangelho de São Lucas e constatarás que também o feminino, através de Maria de Nazaré, foi divinizado pelo Espírito Santo.  Ele armou sua tenda, quer dizer, veio morar para sempre nela. Repara que meu evangelista João diz o mesmo do Filho:  ‘Ele armou sua tenda em Jesus”.   


“Não é o Espírito”, sussura a mesma voz, “que toma o profeta para alguma missão específica e cumprida, termina sua presença nele. Com Maria é diferente. Ele vem, fica e não a deixa mais. Ela é elevada à altura do Divino Espírito Santo. Daí que logicamente, "o Santo gerado será chamado Filho  de Deus". Somente quem foi elevado à altura de Deus pode gerar um Filho de Deus. É o caso de Maria. Não sem razão, é a “bendita entre as mulheres”. 

“Filho, eis uma verdade que deves anunciar:  por Maria Deus mostrou que além de ser Deus-Pai é também Deus-Mãe com as características do feminino: o amor, a ternura, o cuidado,  a compaixão e a misericórdia. Estas virtudes estão também nos homens, mas elas encontram uma  expressão mais visível nas mulheres”. 

“Filho: ao dizeres Deus-Mãe descobrirás a porção feminina de Deus com todas as virtudes do feminino. Não deves esquecer nunca que as mulheres jamais traíram Jesus. Foram-lhe fiéis até ao pé da cruz. Enquanto os homens, os discípulos, fugiram, Judas o traiu e Pedro o negou, elas mostraram um amor fiel até o extremo. Elas, antes dos apóstolos, foram as primeiras a testemunhar a ressurreição de Jesus, o fato maior da história da salvação”. 

“O feminino de Deus não se esgota em sua maternidade, mas se revela no que há de intimidade, de amorosidade, de gentileza e de sensibilidade, perceptíveis no feminino”.   

“Não permita que ninguém, por nenhuma razão, discrimine uma mulher por ser mulher. Aduza todas as razões para respeitá-la e amá-la, pois ela revela algo de Deus que somente ela pode fazer, sendo junto com o homem, à minha imagem e semelhança. Reforce suas lutas, recolha as contribuições que traz para toda a sociedade, para as Igrejas e para um equilíbrio entre homens e mulheres. Elas são um sacramento do Deus-Mãe para todos, um caminho que os leva à ternura  de Deus. Oxalá as mulheres assumam sua porção divina, presente numa companheira delas, em Maria de Nazaré. Mas o dia virá em que cairão as escamas que encobrem seus olhos. E  então, homens e mulheres, nos sentiremos também divinizados pelo Filho e pelo Espírito Santo”. 

Ao voltar a mim, senti na clareza de minha mente, o quanto de verdade me tinha sido comunicado. E comovido, enchi-me de louvores e de ações de graça. 


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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O socialismo não foi ao limbo

Por Leonardo Boff

A nossa geração viu cair dois muros aparentemente inabaláveis: o muro de Berlim  em 1989 e o muro de Wall Street em 2008. Com o muro de Berlim, ruiu o socialismo realmente existente, marcado pelo estatismo, o autoritarismo e a  violação dos direitos humanos. Com o muro de Wall Street, se deslegitimou o neoliberalismo como ideologia política e o capitalismo como  modo de produção, com sua arrogância, sua acumulação ilimitada (greed ist good= a ganância é boa), a preço da devastação da natureza e da exploração das pessoas.

Apresentavam-se como duas visões de futuro e duas formas de habitar o planeta, agora incapazes de nos dar esperança e  de reorganizar a convivência planetária, na qual todos possam caber e que assegurem as bases naturais que sustentam a vida em avançado grau de erosão.

É neste contexto que ressurgem sejam as propostas vencidas no passado mas que podem ter agora chance de realização (Boaventura de Souza Santos), como a democracia comunitária e o “bem viver” dos andinos seja do socialismo originário, pensado como uma forma avançada de democracia.   
    
O capitalismo realmente existente (a sociedade de mercado) eu descarto de antemão, porque é tão nefasto que a continuar com sua lógica devastadora pode liquidar com a vida humana sobre o planeta. Hoje ele funciona para uma pequena minoria: 737 grupos econômico-financeiros  controlam 80% das corporação transnacionais e  dentro destes 147 grupos  controlam 40% da economia mundial (segundo dados do famoso Instituto Tecnológico Suiço) ou os 85 mais ricos que acumulam o equivalente do que ganham 3,57 bilhões de pobres do mundo (Relatório da Oxfam Intermon de 2014). Tal perversidade não pode prometer nada para a humanidade senão depauperação crescente, fome crônica, sofrimento atroz, morte prematura e, no limite, o armagedon da espécie humana.

Ao socialismo, assumido no Brasil por vários partidos, particularmente o PSB com o lamentado Eduardo Campos, cabem algumas chances. Sabemos que seu nascedouro se encontra entre ativistas cristãos, críticos dos excessos do capitalismo selvagem como Sait-Simon, Proudon, Fourier que se inspiraram nos valores evangélicos e naquilo que se chamou de “A Grande Experiência” que foram os 150 anos da  “república comunista cristã dos guaranis (1610-1768). A economia era coletivista, primeiro para as necessidades presentes e futuras e o resto para a comercialização.

Um jesuíta suíço Clovis Lugon (1907-1991) expôs apaixonadamente o intento com seu famoso livro: ”A república guarani: os jesuítas no poder”(Paz e Terra 1968). Um procurador da República brasileiro Luiz Francisco Fernandez de Souza (*1962) escreveu um livro de mil páginas: ”O socialismo: um utopia cristã”. Pessoalmente vive os ideais que prega: fez voto de pobreza, se veste simplerrimamente e vai ao trabalho com um velho fusca.

Os fundadores do socialismo (Marx pretendeu dar-lhe um caráter científico contra os outros que chamava de utópicos) nunca entenderam o socialismo como simples contraposição ao capitalismo, mas como a realização dos ideais proclamados pela revolução burguesa: a liberdade, a dignidade do cidadão, o seu direito de livre desenvolvimento e a participação na construção da vida coletiva e democrática. Gramsci e Rosa Luxemburgo viam no socialismo como a realização plena da democracia.

A questão básica de Marx (abstraindo da construção teórico-ideológica discutível que criou ao redor disso) era: porque a sociedade burguesa não consegue realizar para todos os ideais que ela proclama? Produz o contrário do que quer. A economia política deveria satisfazer as demandas humanas (comer, vestir, morar, instruir-se, comunicar-se etc) mas na verdade ela atende às necessidades do mercado, em grande parte, artificialmente induzidas e visa crescente lucro.

Para Marx, a não consecução dos ideais da revolução burguesa não se deve à má vontade dos indivíduos ou dos  grupos sociais. É consequência inevitável do modo de produção capitalista. Este se baseia na apropriação privada dos meios de produção (capital como terras, tecnologia etc) e na subordinação do trabalho aos interesses do capital. Tal lógica dilacera a sociedade em classes, com interesses antagônicos, incidindo em tudo:  na política, no direito, na educação etc.      

As pessoas na ordem capitalista tendem facilmente,  quer queiram ou não, a se tornar desumanas e estruturalmente “egoístas”, pois cada qual se sente urgido a cuidar, primeiro, de seus interesses e somente depois dos interesses coletivos.

Qual é a saída excogitada por Marx e seguidores? Vamos trocar de modo de produção. No lugar da propriedade privada, vamos introduzir a propriedade social. Mas cuidado, adverte Marx: a troca do modo de produção não é ainda a solução. Ela não garante a nova sociedade, apenas oferece as chances de desenvolvimento dos indivíduos que não seriam mais meios e objetos mas fins e sujeitos solidários na construção de um mundo realmente com rosto humano. Mesmo com estas precondições, as pessoas têm que querer viver as novas relações. Caso contrário não surgirá a nova sociedade. Diz mais: “a história não faz nada; é o ser humano concreto e vivo que tudo faz..;a história não é outra coisa que a atividade dos seres humanos buscando seus próprios objetivos”.

Minha aposta: iremos na direção de uma crise ecológico-social de tal magnitude que, ou assumimos o socialismo com esse teor humanístico, ou então não temos como sobreviver.


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sábado, 23 de agosto de 2014

Desenvolvimento econômico x crise ambiental


“A posição do Brasil é um pouco ambígua; o país já teve um papel de liderança nas negociações sobre as mudanças climáticas, mas esse papel se reduziu na medida em que se optou por ser mais um dos BRICs ao invés de ser uma ponte entre os países desenvolvidos e os países que emergem, como já foi no passado”, avalia o economista Sérgio Besserman Vianna.

“A dicotomia meio ambiente de um lado, e crescimento econômico, combate à pobreza, combate à desigualdade do outro é anacrônica, é algo para ficar no século passado”, pontua Sérgio Besserman Vianna na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.

Segundo ele, neste século está “cada vez mais claro que só poderemos ter perspectivas de crescimento econômico se formos capazes de evitar a continuidade da degradação da natureza do planeta”. O economista enfatiza que as incertezas acerca de como a “humanidade vai reagir principalmente frente às mudanças climáticas” está “paralisando investimentos” e dificultando o cálculo da taxa de retorno de projetos de longo prazo. Essa insegurança, menciona, “virou uma restrição à retomada do crescimento desde a crise de 2008, dado que não só não há mais dicotomia, como muito possivelmente uma recuperação efetiva da economia global vai passar por uma tomada de decisões com relação a mudanças climáticas e outros problemas ambientais”.

Defensor de uma governança global para projetar ações relativas ao enfrentamento das mudanças climáticas, o economista enfatiza que um acordo global ou até mesmo uma proposta de governança “não ocorrerá por boa vontade de uma ou outra liderança”. A falta de convergência, assinala, deverá impactar as negociações do acordo a ser firmado em 2015, na Conferência das Partes em Paris, o qual substituirá o Protocolo de Kyoto. “As dificuldades serão imensas porque o que está em jogo é a geopolítica, ou seja, o poder e a segurança energética de países que dependem de fósseis. Também haverá muita dificuldade na distribuição, no cálculo da contribuição que cada país, cada nação dará para a redução dessas emissões, e dificuldades normais em qualquer negociação que afeta interesses envolvendo mais de 170 países”. Enquanto não se chega a um consenso, a prioridade, ressalta, é que “se retirasse imediatamente qualquer subsídio a combustíveis fósseis. Se não se consegue ainda começar a transição para a gigantesca redução das emissões de gases de efeito estufa, pelo menos é importante que se deixe de usar o dinheiro das pessoas, arrecadado em forma de tributo, para subsidiar o aquecimento do planeta”.

A “esperança”, “a grande novidade” poderá surgir durante a COP-21, com a participação dos EUA nas negociações do novo acordo climático. “O presidente Obama aparecerá nessas reuniões, principalmente em Paris, com capital para jogar. Ele não precisará mais ser o ‘cara do veto’, ele tem cartas na mão para o jogo político e diplomático, que são as reduções norte-americanas em função da substituição de carvão por gás natural. Da mesma maneira, a China tem compreensão de que se os Estados Unidos e a União Europeia entrarem em um processo de transmissão para baixo carbono, o crescimento econômico da China vai depender de ela também se engajar nesse processo, caso contrário retaliações comerciais seriam inevitáveis”. E conclui: “No que isso vai resultar e como a mudança da postura desses dois principais atores — Estados Unidos e China — afetará as negociações é o que nós vamos descobrir, mas pelo menos é um fator de alento para que tenhamos esperanças de sair da inércia”.

Sérgio Besserman Vianna é doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e graduado em Economia pela mesma universidade.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – É possível pensar em crescimento da economia global sem gerar mais problemas ambientais? Trata-se de uma dicotomia ou essas duas propostas podem ser unidas?

Sérgio Besserman Vianna - Essas duas questões hoje, obrigatoriamente, têm de ser pensadas de uma forma conjunta. No século XXI está cada vez mais claro que não é a natureza, ou seja, o meio ambiente que tem problema. A natureza tem um tempo muito diferente do nosso — dezenas, milhões e bilhões de anos. Assim, qualquer coisa que a humanidade faça, a natureza, no tempo dela, vai se recuperar sem qualquer dificuldade. Mas, ao mesmo tempo, a ciência tem nos informado que esse crescimento tem se acelerado muito nos últimos anos e a natureza do nosso tempo, essa que admiramos, amamos e da qual dependemos, não está mais conseguindo se recuperar das degradações provocadas pelo processo produtivo de consumo humano a tempo de continuar a nos entregar serviços indispensáveis à economia e à humanidade, como clima, solos, biodiversidade, água, etc.

Então, a dicotomia meio ambiente de um lado, e crescimento econômico, combate à pobreza, combate à desigualdade do outro é anacrônica, é algo para ficar no século passado. Neste século é cada vez mais claro que só poderemos ter perspectivas de crescimento econômico se formos capazes de evitar a continuidade da degradação da natureza do planeta. Ao mesmo tempo, como esse conhecimento já está consolidado, a incerteza que continua a existir sobre como a humanidade vai reagir, principalmente, frente às mudanças climáticas, está paralisando investimentos, torna difícil — se não impossível — o cálculo da taxa de retorno de projetos de prazo mais longo e virou uma restrição à retomada do crescimento desde a crise de 2008, dado que não só não há mais dicotomia, como muito possivelmente uma recuperação efetiva da economia global vai passar por uma tomada de decisões com relação a mudanças climáticas e outros problemas ambientais.

IHU On-Line – Como o senhor vê os discursos de desenvolvimento sustentável e economia verde? Há uma tentativa de a economia se sobrepor às questões ambientais? Quais são os temas mais urgentes a serem discutidos quando se trata de economia e meio ambiente, tendo em vista a sustentabilidade e o atual momento econômico e ambiental?

Sérgio Besserman Vianna – É preciso distinguir os impactos ambientais locais — um rio, uma bacia hidrográfica, um território dentro de uma cidade ou um bioma — dos problemas ecossistêmicos globais. Do ponto de vista local, muita coisa tem sido feita, o Sebrae tem sido muito atuante, muitos atores econômicos e sociais têm participado da busca de produções locais. Os principais problemas estão relacionados aos recursos hídricos, como estamos observando hoje a crise no abastecimento de água em São Paulo e nos reservatórios de energia elétrica do país; aos resíduos sólidos, porque nós ainda estamos no século passado, querendo acabar com os lixões, quando no mundo mais desenvolvido o lixo tende a desaparecer, sendo grande parte reciclável e o resto produtor de energia ou outros insumos; e à gestão do território em si, porque a proteção da natureza é uma garantia de que nós vamos continuar a ter oferta de água, de clima e assim por diante. Então, proteger nascentes, proteger matas ciliares, florestas perto de cidades ou áreas verdes têm um impacto considerável no clima e muita coisa tem sido feita nesse contexto por aquilo que chamamos de economia verde. Cada sociedade, cada município, cada comunidade atribuiu um valor maior ou menor a essas questões, mas é crescente o engajamento, a participação e a busca por soluções.

Já no plano global são muitos os problemas, mas dois se destacam. Um deles é a crise da biodiversidade e a extinção das espécies. As projeções são de que até o meio do século serão extintas cerca de 20% ou mais das espécies vivas do planeta, e não sabemos o que ocorrerá quando isso se realizar. Há um acordo global sobre a conservação da biodiversidade, mas ele não é implementado.

O outro problema prioritário é o de mudanças climáticas. Esse é urgente, é grave, é profundo, porque nós não temos tempo, porque o estoque de gases na atmosfera já está elevado demais, já não temos tempo de evitar um aquecimento da temperatura média do planeta superior a 2 graus centígrados. Nos próximos anos, em duas ou três décadas, teremos de ter uma gigantesca revolução tecnológica envolvendo não apenas a produção, a oferta de energia, mas toda a economia, os materiais que se utiliza, o padrão de consumo. Haverá uma grande alteração nos preços relativos da economia de mercado global, negócios grandes deixarão de existir, oportunidades e outros negócios vão surgir e a mudança será muito grande. Se nós não fizermos nada, teremos um aumento da temperatura média do planeta superior a 4,5, talvez 6 graus centígrados, o que não será o fim do mundo, o fim da civilização, mas será um pesadelo com grandes consequências, principalmente sobre populações pobres, que são as que estão em posições mais vulneráveis e têm menos recursos para se defender.

IHU On-Line – Como o senhor avalia as interpretações de alguns economistas de que a transição ecológica é inseparável de uma transição social? Qual pode ser a contribuição dessa transição ecológica para as questões sociais?

Sérgio Besserman Vianna – Essa observação é muito justa. No século XIX, dois jovens, Karl Marx e Engels, escreveram o livro A ideologia alemã. Eles não gostaram do livro, o colocaram na gaveta para não ser publicado, mas ele foi achado, publicado e ali tem uma frase genial: “Só existe uma ciência, a ciência da história”. Essas divisões — economia, sociologia, antropologia, ciência política e a própria ecologia — são janelas que nós criamos para facilitar a tentativa de analisar e de entender a realidade, que é muito complexa, mas só existe uma ciência, uma realidade, e essa realidade é a história.

Na história do século XX, pelo fato de já sermos 7 bilhões de pessoas — seremos 10 bilhões —, pelo impacto ambiental ter aumentado enormemente, pelo fato de termos chegado aos limites do planeta em vários temas, mas com destaque para as mudanças climáticas e a biodiversidade, o que irá acontecer no restante deste século, principalmente na primeira metade, com relação às condições sociais de vida das pessoas, ao processo produtivo, àquilo que é objeto de desejo de consumo, à própria cultura, aos valores, é inseparável das decisões que a humanidade vai tomar com relação à crise ecológica. Nós vamos descobrir, de certa maneira, quem somos: se somos aqueles capazes de agir hoje para evitar problemas lá na frente, daqui a 20, 30 anos, e mais ainda para os nossos filhos e netos, ou se somos aqueles que não nos interessamos por isso, vivemos nossa vida e os que vão nascer no futuro resolverão essa questão mais adiante.

IHU On-Line – O senhor aponta a resolução dessas questões a partir de ações e atitudes individuais. Contudo, pensando no âmbito político, como pensar numa governança global nos dias de hoje, considerando que os países não conseguem chegar a acordos nas Conferências do Clima, por exemplo? Como essa governança global daria conta de catalisar ou sugerir uma direção para os diversos problemas a serem enfrentados atualmente, como as mudanças climáticas, a questão econômica?

Sérgio Besserman Vianna – Essa é uma grande incógnita. De fato não existe hoje uma governança global para essa tomada de decisão. Mais do que isso, a governança global está tão falha que não consegue lidar com praticamente nenhum problema, quanto mais com um problema complexo como esse das mudanças climáticas. Mas, a natureza não espera, ela não está dando a menor importância às nossas dificuldades diplomáticas, geopolíticas, econômicas. Nós temos uma janela de oportunidades de 10, 20 anos, no máximo, para iniciarmos a transição da economia de baixo teor de carbono e evitar os piores cenários de aquecimento global. Então, como haverá um encontro dessa necessidade com a atual incapacidade de tomada de decisão, ninguém sabe. As negociações diplomáticas não sugerem que um acordo seja possível, os interesses a serem contrariados são muito grandes, interesses econômicos, geopolíticos. De outro lado, o conhecimento, principalmente o científico, mas também os relatos de povos ao longo do mundo, que observam as transformações da natureza, deixam claro que, com relação a mudanças climáticas, a decisão tem de ser rápida.

Eu não sei a resposta e ninguém sabe, mas acredito firmemente que ela depende de cada um de nós, não só fazendo a sua parte, reduzindo emissões, etc., mas mais do que isso, fazendo política com “P” maiúsculo, política em torno de ideias. Somos nós os cidadãos do planeta, porque agora todos nós somos cidadãos locais e globais. Se no Brasil fizermos todo o dever de casa com relação ao desmatamento e milagrosamente chegarmos ao desmatamento zero, ainda assim, se formos para os piores cenários de aquecimento global, vamos perder grande parte — se não a maior parte — da Amazônia. Então, agora temos de nos manifestar e exigir dos nossos representantes, dentro das nossas nações, que conheçam o tema — porque são ignorantes na sua maioria — e se posicionem sobre o assunto, e devemos votar levando esse fator em conta.

IHU On-Line – Nas discussões das Conferências do clima sempre pesam as decisões econômicas e políticas dos países. As nações deveriam pensar outro modelo de desenvolvimento?

Sérgio Besserman Vianna – Isso não ocorrerá por boa vontade de uma ou outra liderança. O que está em jogo aqui não é um pequeno problema ambiental, o que está em jogo é a civilização dos combustíveis fósseis, é o jeito como vivemos em todos os lugares, na Escandinávia, na América Latina, na África, na Ásia, nos Estados Unidos. Essa civilização dos combustíveis fósseis tem que terminar, senão o planeta vai aquecer muitíssimo neste século, e o sofrimento em vida e os custos econômicos serão elevadíssimos. Um bom exemplo é perguntar: o que sai mais caro, despoluir a Baía de Guanabara agora ou ter trabalhado para que ela não fosse poluída antes? Despoluir é muito mais caro. Podemos fazer uma analogia com o planeta: enfrentar as consequências desse grande aquecimento global sairá muitíssimo mais caro do que evitá-lo, e já não é mais possível evitá-lo da forma como seria desejado.

Respondendo diretamente sua pergunta: a transição da atual civilização de combustíveis fósseis para uma economia de baixo teor de carbono traz custos, modifica os preços relativos, contraria diversos interesses, mas é inevitável. E todos os negócios, grandes e médias companhias do mundo, os próprios pequenos e médios empreendedores, todos vão se defrontar, em algum momento, com uma dramática alteração dos preços relativos, um custo que afetará muito os seus negócios. É preciso estar atento para evitar os principais problemas e aproveitar as oportunidades, mas o custo da inação já não é mais aceitável.

Então, em algum momento, não sabemos como, passará pela pressão da sociedade civil planetária, a transmissão para o baixo carbono terá de ser uma realidade e, mais do que isso, acelerada.

IHU On-Line – Qual tem sido o desempenho do Brasil no processo de enfrentamento das mudanças climáticas e da transição energética? O Brasil está atento a essa mudança?

Sérgio Besserman Vianna – A posição do Brasil é um pouco ambígua; o país já teve um papel de liderança nas negociações, mas esse papel se reduziu depois na medida em que se optou por ser mais um dos BRICs ao invés de ser uma ponte entre os países desenvolvidos e os países que emergem, como já foi no passado — isso do ponto de vista diplomático. Do ponto de vista político, o assunto já foi mais considerado e atualmente tem sido mais ignorado.

Nós temos um ponto positivo e uma preocupação muito grande: o ponto positivo é a redução do desmatamento; o controle do desmatamento reduziu muito as emissões brasileiras e há um trunfo para ser usado nas negociações. O ponto negativo é que na economia nós fizemos muito pouco, até há bons planos setoriais para a agricultura de baixo carbono e diversos outros, que não foram implementados, mas simultaneamente a nossa matriz energética vem se sujando mais a cada ano.

A matriz energética é muito limpa porque é baseada em hidroeletricidade, mas os problemas de escassez vêm afetando os reservatórios, e por conta disso tem se acionado térmicas, e térmicas a carvão, térmicas a óleo combustível. Nesse sentido, não há uma política clara de constituição de uma matriz energética que não apenas continue tão limpa quanto já foi no passado, mas que se torne mais limpa, ou seja, não há uma aposta clara em eficiência energética e das fontes renováveis de energia que levem em conta a necessidade de transição para baixo carbono.

IHU On-Line – É possível vislumbrar quais são as dificuldades em torno do documento que substituirá Kyoto, que já expirou em 2012, tendo em vista o novo acordo climático global a ser firmado em 2015, na França? Que temas deveriam ser prioridade nesse acordo que já começou a ser negociado?

Sérgio Besserman Vianna – As dificuldades serão imensas porque o que está em jogo é a geopolítica, ou seja, o poder e a segurança energética de países que dependem de fósseis.
Também haverá muita dificuldade na distribuição, no cálculo da contribuição que cada país, cada nação dará para a redução dessas emissões, e dificuldades normais em qualquer negociação que afeta interesses envolvendo mais de 170 países.

A ONU não é uma instituição habilitada à tomada de decisões rápidas; ela representa as nações, mas é pouco eficaz como a teoria dos jogos explicaria perfeitamente, porque qualquer país tem direito de veto e assim por diante.

As dificuldades, então, serão muito grandes, geopolíticas e principalmente econômicas, porque o que está em jogo também é o ritmo de depreciação dos ativos, é a mudança no processo de produção de consumo. É verdade que grandes companhias e empresários do mundo têm perfeita consciência de todo esse problema e já se posicionam para o novo mundo, digamos assim, mas também há muitas companhias e empresários que preferem ignorar e apostar tudo no lucro de curto prazo. Essas resistências serão as maiores dificuldades.

A prioridade maior de todas — porque embora haja uma data para o acordo em 2015, pode não se chegar a esse acordo — seria que em todos os países do mundo se retirasse imediatamente qualquer subsídio a combustíveis fósseis. Se não se consegue ainda começar a transição para a gigantesca redução das emissões de gases de efeito estufa, pelo menos é importante que se deixe de usar o dinheiro das pessoas, arrecadado em forma de tributo, para subsidiar o aquecimento do planeta. Isso ocorre na maior parte dos países e também no Brasil, por exemplo, com a manutenção artificialmente baixa do preço da gasolina, ou com subsídios na compra de automóveis sem discriminar os veículos que emitem muito ou que são mais eficientes.

IHU On-Line – Em relação à geopolítica, quais países terão mais peso nas negociações de 2015? Nas negociações de Kyoto, os EUA dificultaram as negociações. Hoje o país ainda desempenha um papel fundamental no sentido de assumir uma postura contrária ao acordo?

Sérgio Besserman Vianna – Até hoje nós tivemos um jogo naturalmente complicado, mas tanto os Estados Unidos quanto a China eram atores mais voltados para vetar e embarreirar o avanço do que para fazer as negociações progredirem. Isso mudou muito nos últimos anos com o gás não convencional — que no Brasil nós chamamos gás de xisto — nos Estados Unidos. Eles passaram a ter quase autonomia energética por mais de um século e meio, e embora o gás natural seja um fóssil que aqueça o planeta, ele é utilizado lá para substituir o carvão, sendo que nesse sentido é visto como uma vantagem, porque o carvão é muito pior que o gás natural.

A grande novidade em 2015 na Conferência das Partes — talvez já apareça um pouco nesse ano na Conferência das Partes de Lima, que é preparatória para a conferência de Paris — é que o presidente Obama aparecerá nessas reuniões, principalmente em Paris, com capital para jogar. Ele não precisará mais ser o “cara do veto”, ele tem cartas na mão para o jogo político e diplomático, que são as reduções norte-americanas em função da substituição de carvão por gás natural. Da mesma maneira, a China tem compreensão de que se os Estados Unidos e a União Europeia entrarem em um processo de transmissão para baixo carbono, o crescimento econômico da China vai depender de ela também se engajar nesse processo, caso contrário retaliações comerciais seriam inevitáveis. Então, no que isso vai resultar e como a mudança da postura desses dois principais atores — Estados Unidos e China — afetará as negociações é o que nós iremos descobrir, mas pelo menos é um fator de alento para que tenhamos esperanças de sair da inércia.

IHU On-Line – Quais as expectativas para a Conferência do Clima – COP-20 deste ano, em Lima, no Peru? Quais os principais temas a serem discutidos?

Sérgio Besserman Vianna – Esse modelo de negociações climáticas das Nações Unidas reproduz um pouco a forma de negociação da Organização Mundial de Comércio: é extremamente detalhado, e toda a tecnologia das negociações globais comercias foi trazida para as negociações das mudanças climáticas. Em 2014, em Lima, o que vai ser discutido de mais importante são os mecanismos de financiamentos para os países que necessitarão de recursos, seja para mudar o seu processo produtivo, seja para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas, e o financiamento da redução do desmatamento, da preservação das florestas. Isso é importante, mas o mais importante em Lima serão as negociações de bastidores para ir preparando para 2015 uma negociação mais profunda e capaz de atender as metas que têm de ser alcançadas e que são muito grandes.

Fonte: IHU On-Line.


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